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segunda-feira, novembro 17, 2008

Ku Klux Klan

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

A primeira Ku Klux Klan na verdade foi fundada por 6 amigos da cidade de Pulaski, Tennessee, em 1865 após o final da Guerra civil americana. Seu objetivo era impedir a integração social dos negros recém-libertados, como por exemplo, adquirir terras, ter direitos concedidos aos outros cidadãos, como votar. O nome, cujo registro mais antigo é de 1867, parece derivar da palavra grega kuklos, que significa "círculo", "anel", e da palavra inglesa clan (clã) escrita com k. Devido aos métodos violentos da KKK, há a hipótese de o nome ter-se inspirado no som feito quando se coloca um rifle pronto para atirar.

Em 1872 o grupo foi reconhecido como uma entidade terrorista e foi banida dos Estados Unidos.

O segundo grupo que utilizou o mesmo nome foi fundado em 1915 (alguns dizem que foi em função do lançamento do filme O Nascimento de uma Nação, naquele mesmo ano) em Atlanta por William J. Simmons. Este grupo foi criado como uma organização fraternal e lutou pelo domínio dos brancos protestantes sobre os negros, católicos, judeus e asiáticos, assim como outros imigrantes. Este grupo ficou famoso pelos linchamentos e outras atividades violentas contra seus "inimigos". Chegou a ter 4 milhões de membros na década de 1920, incluindo muitos políticos. A popularidade do grupo caiu durante a Grande Depressão e durante a Segunda Guerra Mundial.


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Ku Klux Klan é condenada a pagar US$ 2,5 milhões a vítima de agressões

Adolescente foi agredido em 2006 por três integrantes da KKK.
‘Eu só rezava para chegar em casa’, conta o rapaz, hoje com 19 anos.

Do G1, com informações da Associated Press

Ampliar Foto Foto: Brian Bohannon/AP

Jordan Gruver, hoje com 19 anos, durante julgamento (Foto: Brian Bohannon/AP)

Um júri condenou a organização racista Ku Klux Klan (KKK) a indenizar um adolescente violentado por três integrantes da seita em julho de 2006.

A condenação acontece dias após uma americana ser morta durante um ritual de iniciação da KKK, na Louisiana.

Entenda o que é a Ku Klux Klan

Na ocasião, a KKK achou que o rapaz de Kentucky era um imigrante. O jovem Jordan Gruver, hoje com 19 anos, é americano.

A indenização é de US$ 2,5 milhões. Deste total, US$ 1,5 milhão é por compensação por danos físicos e morais e o outro milhão é uma condenação ao “império mágico” de Ron Edwards, um dos líderes do grupo racista.

Ron Edwards, um dos líderes da KKK (Foto: Brian Bohannon/AP)

O júri foi formado por sete homens e sete mulheres, todos brancos, que debateu por cinco horas após três dias de julgamento. Inicialmente, a equipe de defesa queria US$ 6 milhões como indenização.

“Tudo o que pude ver foram chutes”, disse Gruver no julgamento. “Enquanto eles me chutava, eu rezava por mim e dizia: ‘Deus, por favor só me deixe ir. Me faça chegar em casa’”, contou o jovem. Por conta das agressões, ele teve quebrado a mandíbula, o antebraço, duas costelas além de cortes e escoriações pelo corpo.

quinta-feira, novembro 13, 2008

O mapa do racismo nos EUA

A ONG americana Southern Poverty Law Center (SPLCenter), com sede no estado do Alabama, mapeou 762 grupos racistas nos EUA, ligados a seis organizações diferentes. Desse total, 161 são agrupados na categoria ''outros'', que não têm uma linha específica de ação.

Na lista figuram os chamados Separatistas Negros, que se opõem à integração das diferentes raças. eles chegam a pregar a criação de uma nação negra. E, embora formada por integrantes de uma das minorias atacadas pelos segregacionistas brancos, é considerada pelo SPLCenter tão racista quanto as outras organizações. Os Separatistas Negros têm 108 grupos cadastrados e são a terceira maior organização racista do país.

A Ku Klux Klan tem 162 grupos associados. Mais antiga das organizações que pregam a supremacia branca nos EUA, surgiu no fim da guerra Civil, em 1865, quando perseguia os negros no Sul do país. Ao longo dos anos, estendeu seu ódio aos judeus, homossexuais e, mais recentemente, aos católicos. O SPLCenter admite que o número estimado de 7 mil integrantes pode ser maior, uma vez que hoje em dia muitos dos filiados preferem manter sua identidade em segredo absoluto.

A segunda maior organização são os neo-nazistas, com inspiração óbvia no que pregava Adolf Hitler na Europa. Concentram seu ódio nos judeus, mas também perseguem gays e cristãos. Têm 158 grupos cadastrados. Também atacam os judeus 28 grupos ligados à Identidade Cristã, de brancos.

O levantamento mapeou, ainda, outras duas denominações. A primeira é a dos neo-confederados, que tem discurso similar ao da Klan e remete à Guerra Civil. Persegue qualquer imigrante que não seja branco. São 97 grupos. A última é a dos skinheads racistas, com 48 grupos. Também integrada por brancos, persegue outras raças.


Vitória de Obama não encerra racismo nos EUA, dizem ativistas

MATTHEW BIGG - REUTERS

ATLANTA - A eleição de Barack Obama como primeiro presidente negro dos Estados Unidos deve estimular no exterior a imagem dos EUA como uma terra de oportunidades para todos.

Mas alguns analistas acham que esse feito histórico na verdade pode prejudicar o combate à desigualdade racial no país, onde até a década de 1960 os negros do sul do país eram proibidos de votar.

Mais de 55 milhões de pessoas votaram em Obama, um senador que é filho de um negro do Quênia com uma branca do Kansas. Sua vitória sobre o republicano John McCain foi obtida graças ao apoio de uma ampla variedade de grupos e setores demográficos.

A força de Obama entre os jovens de todas as raças, num país onde o eleitorado jovem e não-branco está crescendo, parece sugerir que o fator racial vai gradualmente sumir da política norte-americana.

"Sua eleição demonstra a extraordinária capacidade da América de se renovar e se adaptar a um mundo em mutação", disse o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan.

Mas vários comentaristas disseram que o resultado eleitoral não muda em nada a desigualdade racial.

"Há uma aceitação entre amplos segmentos da população de que um afro-americano qualificado (Obama) pode ser aceito no cargo mais elevado", disse Earl Ofari Hutchinson, autor de um recente livro sobre raça e política.

"Mas isso não faz com que os problemas sumam magicamente para a pessoa média de cor. Nada mudou e para muita gente os estereótipos negativos continuam sendo os mesmos."

Chuck D., considerado por muitos o padrinho do rap engajado, disse que a eleição de Obama pode mudar radicalmente o debate racial nos EUA, mas que isso pode ter um lado ruim.

"As pessoas dirão: 'Vocês já têm um presidente negro, então está tudo bem'. Mas isso não apaga a discussão (racial) que é preciso ter", disse Chuck D., da banda de rap Public Enemy.

Em uma entrevista, ele alertou para que Obama não vire uma "arma de distração em massa", que impeça a solução dos problemas dos afro-americanos.

Especialistas discordam sobre a causa das disparidades entre a maioria branca e a minoria negra, que representa cerca de 13 por cento dos 300 milhões de habitantes dos EUA.

Na média, os afro-americanos ganham menos, ficam mais desempregados e enfrentam maior taxa de mortalidade infantil e menor expectativa de vida. Também têm mais chances de serem condenados penalmente e de passarem mais tempo na cadeia do que outros grupos raciais.

Uma classe média negra floresceu nos EUA desde que o movimento dos direitos civis, nas décadas de 1950 e 60, acabou com o brutal sistema de segregação racial no sul, abrindo caminho para leis que estenderam o direito de voto a todos os negros dos EUA.

Mas muitos negros de classe média dizem que, apesar do seu sucesso profissional e financeiro, a raça continua sendo um fator significativo, entranhado nas interações sociais e profissionais.

A eleição em si não elimina essas disparidades, mas pode alterar a forma como elas são vistas, e isso pode fazer a diferença, na opinião de Cynthia Tucker, colunista do Atlanta Journal-Constitution e vencedora do prêmio Pulitzer.

"Um governo Obama não prenuncia o fim do racismo na América. Obama não é 'pós-racial'. Ele não é o messias que está vindo acabar com a intolerância e a desigualdade para sempre. Ele será apenas o presidente."

Ao mesmo tempo, a eleição de Obama pode alterar a auto-imagem dos afro-americanos. "Não sei se esta eleição muda alguma coisa imediatamente. Mas uma coisa que muda é o estado de espírito. Os afro-americanos são cidadãos (há gerações), mas há agora uma verdadeira sensação de que tudo é possível", disse Roberts.

Racismo EUA

A grande celeuma a respeito do projeto de cotas para estudantes negros nas universidades traz à baila, mais uma vez, o tema do racismo no Brasil, e suscita inevitáveis comparações com os EUA, o local, aliás, onde surgiu pela primeira vez esta idéia de cotas. Se copiamos a solução deles, isto significa que o problema deles é igual ao nosso? Ou será que, junto com a solução, estaremos importando também o problema? Em outras palavras, este sistema pode atrair contra os estudantes negros o despeito de seus colegas brancos, e então ninguém mais duvidará de que o racismo americano é igual ao brasileiro.

Em nenhum ponto o Brasil é mais distinto dos EUA, do que nas questões referentes a raças. A começar pela própria definição das raças. Nos EUA, a divisão entre brancos e pretos é nitidamente delineada, sendo os mestiços classificados entre os pretos (e há relativamente poucos mestiços). A diferença entre os níveis de renda de cada raça é flagrante. Desta forma, há uma relação evidente entre a cor da pele e a carência econômica que justifica o recebimento do benefício. Esta mesma relação, no Brasil, é muito mais fluida e questionável. Aqui as raças estão misturadas, há poucos brancos e pretos puros, e uma multidão de mestiços. Há poucos pretos ricos, mas em contrapartida, há muitos brancos pobres. Se a lei das cotas fizer sucesso, o que se verá a longo prazo é uma multidão de estudantes invocando algum remoto ancestral e declarando-se "pretos" na hora da prova. O benefício, neste caso, se extinguirá, pois o que é privilégio de todos, na verdade não é privilégio algum.

Aproveitando o gancho, disponho-me a fazer uma breve análise histórica e sociológica para explicar o porquê da evolução divergente do racismo nos EUA e no Brasil, países que tem em comum o passado escravocrata. Este é um tema sobre o qual muito já se falou e pouco se explicou. Mas acredito que a pista se encontra na observação, poucas vezes enfatizada, de que nos EUA, antigamente, existiam dois tipos distintos de racismo: o racismo dos ricos e o racismo das classes trabalhadoras.

O primeiro deles pode ser encontrado nos textos de refinados intelectuais e nos discursos dos políticos aristocratas. A discussão é mais subjetiva, especulava-se se os africanos pertenciam de fato à espécie humana, se a capacidade de aprendizado destes seria igual à do homem branco, ou se eles, na verdade, seriam um estágio de humanidade intermediário entre o homem caucasiano e o macaco. Volta e meia teciam projetos tresloucados de mandar todos os negros de volta para a África, ou de dar-lhes terras ali mesmo no continente americano, bem longe das áreas povoadas pelos brancos. De modo geral, estes homens não gostavam dos negros e desejavam que eles não estivessem ali, mas também não tinham propósitos hostis contra estes. Um bom exemplo desta corrente de pensamento foi dado por Benjamin Franklin:

"...e visto que, por assim dizer, estamos limpando nosso planeta, livrando de florestas a América e, com isso, fazendo com que esse lado do globo reflita uma luz mais brilhante para quem o contempla de Marte ou Vênus, por que deveríamos... escurecer seu povo? Por que incrementar o número dos Filhos da África transportando-os para a América, onde nos é oferecida uma oportunidade tão boa de excluir todos os negros e escuros, e de favorecer a multiplicação dos formosos brancos e vermelhos?"

Note bem: o motivo da aversão de Benjamin Franklin pelos africanos era... estética! Ele achava que a cor deles não ia combinar com a paisagem que desejava expor aos marcianos e venusianos... Mas Benjamin Franklin era um intelectual sofisticado, e podia permitir-se estes devaneios. Os ricos podem ter esta atitude blasé porque eles circulam por ambientes como suas propriedades, condomínios, clubes elegantes, hotéis de luxo, salas VIP, lugares de onde os negros estão excluídos a priori, não por serem negros, mas por serem pobres. Eles podem não gostar de pretos, mas raramente cruzam com eles; e depois, como eles com freqüência são empregadores, a existência dos negros lhes é conveniente como reserva de mão-de-obra barata. A condição social do negro é que define o seu papel e segrega-o do branco rico, como este deseja, sem que haja necessidade de uma legislação discriminatória ou de atos de violência.

Bem diferente é o caso do branco de classe trabalhadora que tem que conviver ombro a ombro com os ex-escravos. Este fenômeno foi sentido nos EUA com bastante intensidade no quarto final do século XIX: antes o racismo era restrito ao sul recalcado e vingativo, mas à medida em que levas e mais levas de escravos libertos migravam para o norte em busca de emprego, acirrava-se a hostilidade contra eles. Para um trabalhador branco, a presença de um preto nas vizinhanças não era um incômodo subjetivo ou mera questão de antipatia, mas uma ameaça direta a seu padrão de vida. Os negros aceitavam salários muito baixos, e nos bairros onde eles se instalavam, o preço dos imóveis despencava. Desta forma, à medida em que o trabalhador americano se organizava em sindicatos e partia para a luta organizada contra os patrões, ele também lutava contra os negros e outras minorias. Na cultura americana, o combate do cidadão comum contra o poderoso - o monarca cobrador de impostos, o patrão ganancioso - é visto como glorioso, mas o combate contra o fraco - o negro, o imigrante pobre - é uma coisa feia, ou se preferirem, politicamente incorreta. Mas do ponto de vista do trabalhador americano, ambos os combates tinham um só objetivo pragmático: melhorar de vida. O racismo das classes trabalhadoras caracterizou-se, desde o princípio, pela violência sistemática e pela segregação forçada, que foi tomando forma de lei à medida em que o racismo contaminava a classe média que constituía a base do eleitorado.

É possível apontar, na História do Brasil, alguma ocorrência análoga?

Não, não é possível. Para examinar o porquê dessa ausência de similaridade, podemos examinar três momentos distintos: o último quarto do século XIX, a primeira metade do século XX, e a segunda metade do século XX até a época atual.

No final do século XIX, época em que a escravidão foi abolida, os EUA estavam em plena revolução industrial. O proletariado ia rapidamente se constituindo de operários, que em geral passavam longas horas diárias nas fábricas, e residiam em bairros-dormitórios com outros operários. Desta forma, forjou-se entre eles uma associação fechada e hostil a intrusos, como os escravos libertos que competiam por seus empregos. Na mesma época, no Brasil, não havia revolução industrial, nem classe trabalhadora numerosa, e os negros, mesmo libertos, continuavam no campo. Os poucos que iam para as cidades (como os ex-combatentes da Guerra do Paraguai) não encontravam ocupação e terminavam nas favelas, cujos primeiros exemplares datam desta época.

No início do século XX, acelerou-se a industrialização no Brasil, ainda que concentrada quase que exclusivamente no estado de São Paulo. O proletariado nacional constituiu-se, principalmente, de imigrantes europeus. Um censo levado a cabo em 1928 revelava que 70% dos trabalhadores da construção civil e 90% dos operários eram estrangeiros, italianos em sua maioria. Eram esses imigrantes que formavam a reserva de mão-de-obra disponível, uma vez que, por esta época, a grande maioria dos negros ainda se encontrava no campo (assim como mais de 3/4 da população, de modo geral). Neste ponto, há flagrante analogia com a situação nos EUA. Lá como aqui, os operários eram em geral imigrantes, e viviam em bairros divididos por nacionalidades. Eram comunidades muito unidas e fechadas sobre si mesmas. A escritora Zélia Gattai (in Anarquistas Graças a Deus) fala da sua infância em São Paulo, e conta como tinha que tomar cuidado ao passar por certos quarteirões do Brás onde sua mãe lhe havia proibido ir, por serem habitados por italianos do sul (a família de Zélia era do norte). Ela ressalta que, naquele território, eram eles quem mandavam, e até os policiais da força pública que circulavam por ali tinham que ser previamente aprovados pela comunidade. Entretanto, se por um lado houve um longo histórico de greves, anarquismo e conflitos trabalhistas entre essas comunidades e o poder público, por outro lado encontram-se ausentes os conflitos entre comunidades de diferentes grupos étnicos, que foram tão comuns nos EUA. Por que esta diferença, se de resto a forma como estas comunidades se organizavam era tão semelhante?

Certamente que apenas os ares do hemisfério sul não mudam o caráter de ninguém, nem tornam as pessoas mais tolerantes. Este tipo de conflito inter-étnico não surgiu aqui simplesmente porque não houve uma situação que os detonasse. A grande maioria dos operários era italiana, e os demais eram oriundos de outros países do sul da Europa. Essa massa era culturalmente afim e tinham todos uma pretensão salarial semelhante, enquanto que os contingentes de imigrantes dos EUA eram muito mais diversificados. Seria ingenuidade, entretanto, supor que os "anarquistas" do Brás iriam manter sua postura fraternal se, de um momento para o outro, surgissem por ali incontáveis levas de intrusos, aceitando salários ainda mais baixos que os deles, e ainda com o agravante de serem fisicamente diferentes, de pele negra, impossíveis de serem confundidos com membros da comunidade. Isto, porém, jamais ocorreu.

Na segunda metade do século XX, acelera-se a migração do campo para a cidade, ao mesmo tempo em que cessa a imigração estrangeira. O novo operariado nacional é heterogêneo em termos étnicos. Constitue-se, sobretudo, de migrantes vindos do interior, especialmente do nordeste (Lula é o representante mais emblemático desta classe). Os descendentes dos antigos operários imigrantes agora são membros da classe média, e nos antigos bairros de imigrantes agora predominam restaurantes e mercearias. Mas desta vez, as vagas nas fábricas já não são suficientes para todos. O modelo industrial, que desde o século XIX faz seu papel de elevador social, transformando primeiro camponeses em operários, e depois operários em classe média, claramente atingiu o seu limite. De fato, com as novas tecnologias de automação, a tendência mundial é de diminuição do total de empregados do setor industrial, ao mesmo tempo em que aumenta o setor de serviços. Na época atual, nenhuma fábrica mais admite operários sem um mínimo de instrução formal. No início do século isto era possível, primeiramente porque a natureza do trabalho então executado era menos complexa do que hoje, e segundo porque, de qualquer forma, não havia escolha, já que a grande maioria dos trabalhadores era semi-analfabeta. Mas hoje em dia isso é impensável. A geração que veio junto com Lula trabalhar no grande ABC, sem dúvida era oriunda das camadas pobres, mas não do extrato mais baixo da sociedade. Os integrantes deste extrato, no qual se inclui a grande maioria dos negros, nunca entrou na economia formal, e em geral veio do campo para habitar as favelas e viver de expedientes avulsos. Nota-se que há, até, relativamente poucos negros na classe trabalhadora, onde predomina o típico nortista conhecido como o "paraíba".

Assim, época por época, uma série de circunstâncias fez com que os negros e a classe trabalhadora jamais entrassem em rota de colisão. De fato, estas entidades sempre levaram existências paralelas: nem o negro, estritamente, entrou para a classe trabalhadora organizada e formal, nem essa classe trabalhadora jamais viu o negro como fator de redução de seu padrão de vida. Assim, históricamente, o racismo de que os negros brasileiros vem sendo vítimas é o racismo subjetivo dos ricos, baseado em desprezo e indiferença, e não o racismo objetivo da classe trabalhadora, baseado em hostilidade, violência e leis de segregação. Pode-se traçar, também, um paralelo com a África do Sul. Poucos sabem, mas o apartheid nem sempre existiu, e de fato surgiu em época relativamente recente, em meados deste século. Antes disso, os negros teóricamente tinham direitos iguais. A razão da emergência do sistema de apartheid (literalmente, "desenvolvimento em separado") está ligada às mudanças sócio-econômicas na África do Sul: inicialmente os colonos afrikaners, de origem holandesa, formavam uma comunidade rural e atrasada de fazendeiros escravocratas, onde os negros tinham um lugar bem definido. O quadro social, portanto, era análogo ao do Brasil na mesma época, e análogo também era o tipo de racismo. Mas com a modernização do país, que foi adquirindo um perfil europeu, os negros perderam o seu papel tradicional e viram-se transformados em um enorme contingente de mão-de-obra excedente, que tinha que ser de alguma maneira apartada do mercado de trabalho e dos bairros residenciais, para preservar o padrão de vida dos trabalhadores brancos. O quadro social, portanto, era análogo ao dos EUA pós-guerra civil, e análogo também era o novo tipo de racismo.

Espero ter dado uma explicação satisfatória para as diferenças entre o racismo no Brasil e nos EUA, e demonstrado como não há, em absoluto, similitude entre eles. Não espero, contudo, ouvir muitas palavras de apoio à minha tese, já que estou ciente de haver dito coisas que a maioria das pessoas não gosta de ouvir, como colocar a classe trabalhadora no papel de vilã tradicionalmente reservado à classe rica, bem como haver lembrado de que o racismo pode não ser filho do arcaísmo, mas da modernidade.

Um marco na história de São Paulo e, apesar de não termos vencido, forçamos o governo a aprovar (2 anos depois) uma nova Constituição. Em li...