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domingo, agosto 17, 2008

PARA SAI

17/08/2008 - 13h01

Países pressionam Rússia; Medvedev diz que retirada começa amanhã

da Folha Online

Ao menos três países --Estados Unidos, Alemanha e França-- pressionaram neste domingo a Rússia a retirar suas tropas da Geórgia ao mesmo tempo em que o presidente russo, Dmitri Medvedev, anunciou que começará a retirada nesta segunda-feira. Apesar do anúncio, não há informações sobre quanto tempo essa retirada vai levar.

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Em um comunicado divulgado pelo Kremlin, Medvedev anunciou que o começo da retirada das tropas acontecerá amanhã, mas não fez menção sobre deixar a Ossétia do Sul, região separatista que está no centro do conflito entre a Rússia e a Geórgia. Ele disse apenas que as tropas voltariam para Ossétia do Sul de suas posições na Geórgia.

Os confrontos tiveram início quando a Geórgia, que é aliada dos EUA, enviou tropas para retomar o controle sobre a Ossétia do Sul, região separatista que declarou independência no começo dos anos 90. Moscou reagiu à ofensiva porque apóia o pequeno território e mantêm forças de paz na região.

Mikhail Metzel/AP
Moradores da Ossétia do Sul comem em um campo de refugiados na Ossétia do Norte
Moradores da Ossétia do Sul comem em um campo de refugiados na Ossétia do Norte

Desde a assinatura do acordo de cessar-fogo pela Rússia --que havia sido feita anteriormente pela Geórgia--, a pressão ocidental para a retirada de tropas russa tem aumentado. Os Estados Unidos e a França já haviam acusado a Rússia de descumprir a trégua, pelo fato de tanques e soldados russos continuarem a rodar livremente pela Geórgia.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, alertou neste domingo que a Rússia enfrentaria "sérias conseqüências" se não começasse a retirada e falou mais cedo com Medvedev pelo telefone.

O presidente francês, afirmou o comunicado emitido pelo Palácio do Eliseu, "advertiu o presidente Medvedev para as graves conseqüências que a não execução rápida e completa do acordo teria para as relações da Rússia com a União Européia (UE)".

EUA

A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, acusou novamente neste domingo o presidente russo de descumprir a promessa de retirada rápida das tropas da Geórgia, estabelecida pelo acordo de cessar-fogo assinado pelos dois países. "Espero que, desta vez, ele cumpra a palavra", disse Rice após Medvedev anunciar que a retirada começaria amanhã.

Irakli Gedenidze/AP
Presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, não reconhece tropas de paz russas
Presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, não reconhece tropas de paz russas

"A Rússia atualmente não está cumprindo o cessar-fogo", disse Rice. "Não tenho uma explicação. Quando o presidente russo disse que assinou o acordo, pensei que aquilo significava a retirada das forças russas. Elas não se retiraram. No entanto, mais uma vez, o presidente russo deu sua palavra e, desta vez, espero que ele a honre", afirmou.

Ontem, em mais uma advertência à Rússia, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, afirmou que o país não pode exigir o direito sobre as duas regiões separatistas --Ossétia do Sul e da Abkházia-- da vizinha Geórgia, aliada dos EUA, e que não há espaço para o debate sobre o assunto.

"A Rússia deve entender, a partir de agora, que a Ossétia do Sul e a Abkházia estão dentro das fronteiras da Geórgia. Não há discussão sobre isso", disse Bush, que havia classificado como 'passo promissor' a adesão do presidente russo ao acordo de cessar-fogo.

Alemanha

A chanceler alemã, Angela Merkel, pediu hoje à Rússia a retirada de suas tropas da Geórgia "em questão de dias" e mostrou a disposição de seu país em participar de uma força multinacional de paz na zona de conflito.

Merkel fez as afirmações em Tbilisi em entrevista coletiva conjunta com o presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, que voltou a acusar a Rússia de fazer uma "limpeza étnica" na região.

Sergei Chirikov/Efe
A chanceler alemã, Angela Merkel, encontra o presidente russo, Dmitri Medvedev
A chanceler alemã, Angela Merkel, encontra o presidente russo, Dmitri Medvedev

"O presidente russo, Dmitri Medvedev, me prometeu que retiraria as tropas após assinar o plano europeu. Isto deve ocorrer nos próximos dias", afirmou. Merkel acrescentou que "todo o mundo está esperando a retirada das tropas russas", assunto do qual os ministros de Relações Exteriores da União Européia (UE) tratarão na terça-feira (19).

"Não se pode alongar o processo de retirada de tropas estipulado anteriormente. Também é importante que os observadores cheguem o mais rápido possível à zona", disse.

Além disso, ela disse que a guerra na região separatista da Ossétia do Sul não implicará em nenhuma mudança na decisão tomada pela Otan, em abril passado. "As portas da Otan estão abertas para a Geórgia", afirmou, acrescentando que a política de vizinhança da UE com a Geórgia será "mais ativa" a partir de agora.

Tropas de paz

Arte/Folha Online
mapa ossétia

Por sua parte, Saakashvili voltou a acusar a Rússia de "limpeza étnica" e exigiu a imediata retirada das tropas "ocupantes" do país vizinho. "A Geórgia nunca cederá nem um metro quadrado de seu território. Nunca aceitaremos a anexação, o separatismo e a violação do sistema democrático", afirmou.

Saakashvili insistiu na necessidade de criar uma força multinacional de paz como um aspecto-chave para a solução do conflito. "Não há tropas de paz russas, são soldados. A Rússia não pode ser mediadora. Não há parte sul-osseta, já que ali são todos representantes russos. Os separatistas são financiados pela Rússia", apontou.

Com agências internacionais

texto para SAI

Rússia versus Geórgia
O que está em jogo na guerra do Cáucaso


Contando com o apoio norte-americano, o presidente Saakashvili ordenou o ataque à Ossétia do Sul
Ainda não terminou por completo a guerra entre a Rússia e a Geórgia, iniciada em 8 de agosto. O conflito ocorreu em função do projeto separatista da Ossétia do Sul e da Abkházia, mas está relacionado a problemas étnicos e nacionais que datam da dissolução da União Soviética.

Repete-se no Cáucaso o que já havia acontecido nos Bálcãs, com a independência do Kosovo, em fevereiro de 2008, que estava relacionada à dissolução da Iugoslávia. Por isso, para entender o conflito russo-georgiano, é necessário levar em consideração outros eventos ocorridos anteriormente nessa região geográfica em que Europa e Ásia se limitam.

Em primeiro lugar, convém recordar o que era a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, uma federação criada em 1922, ao fim da guerra civil desencadeada pela Revolução Russa. A Revolução implantou o socialismo no Império russo, que incluía a Rússia, a Ucrânia, a Bielorússia (atual Belarus) e a Transcaucásia (Armênia, Azerbaijão e Geórgia). Gradualmente, a URSS chegou a abranger 15 repúblicas, até 1991 quando o regime socialista entrou em colapso.

Colapso da URSS
Ainda antes que isso acontecesse, em 1989, a região da Ossétia do Sul havia declarado autonomia em relação à República Socialista Soviética da Geórgia, aproximando-se da Rússia, que dominava a União Soviética. Com a dissolução da URSS, em 1991, a Geórgia tornou-se uma república independente. A Ossétia do Sul procurou seguir pelo mesmo caminho, proclamando sua independência em relação à Geórgia.

Disso resultou uma guerra entre a Geórgia e a Ossétia do Sul que se estendeu até 1992. A Rússia intermediou a paz entre as duas. A atuação russa, porém, estava condicionada por seus interesses nacionais, que implicam intenções de transformar em área de influência russa tanto a Ossétia do Sul quanto a própria Geórgia.

No que se refere à Ossétia do Sul, a Rússia chegou a distribuir passaportes russos para os ossetianos, de modo a poder declarar que sua intervenção na região tinha como objetivo a proteção de cidadãos russos. Desde a presidência de Vladimir Putin, quando emergiu do caos posterior ao colapso soviético e se tornou uma potência emergente, a Rússia anseia por retomar a posição hegemônica que ocupou na Europa e no Cáucaso, nos tempos de URSS.

A Geórgia, por sua vez, caminhava no sentido contrário às ambições russas, particularmente a partir de 2004, com a eleição do presidente Mikhail Saakashvili, que tentou levar o país à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), além de se aproximar dos Estados Unidos, de modo a escapar ao poderio russo.

Kosovo e Otan
A proclamação de independência do Kosovo, em relação à Sérvia, foi a deixa que a Ossétia do Sul esperava para retomar suas pretensões separatistas. Ao mesmo tempo, a tentativa georgiana de entrar para a Otan foi a deixa que a Rússia esperava para apoiar a independência da Ossétia do Sul, baseada também no fato de a região abrigar grande número de "cidadãos russos".

No entanto, se o caldeirão está fervendo há tanto tempo, o que levou a Geórgia a agir exatamente em agosto de 2008, mandando suas tropas para a Ossétia do Sul? Um analista do jornal britânico "The Guardian", lembra que o presidente Saakashvili está enfrentado uma crise econômica e uma fase de impopularidade.

Com a invasão da Ossétia do Sul, ele estaria resolvendo um problema nacional pendente há anos e conquistaria o apoio popular, a pretexto de enfrentar o inimigo externo. Além disso, Saakashvili não contava com uma reação russa, certo de que Putin não teria coragem de enfrentar militarmente um aliado dos Estados Unidos.

Cessar-fogo
Como se viu, faltou combinar a jogada com os russos. Estes reagiram duramente à ação georgiana, independentemente dos protestos dos norte-americanos. A Rússia aceitou em 12 de agosto o cessar-fogo negociado pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, em parte porque já atingiu seus objetivos, mostrando ao mundo que está disposta a lutar para manter a hegemonia sobre a região.

Cacife não lhe falta para isso: além de riquezas provenientes do gás e do petróleo, a Rússia mantém quase um monopólio do fornecimento de energia para a Europa. Conta ainda com um milhão de soldados, milhares de ogivas nucleares e o terceiro maior orçamento militar do mundo.

Desse modo, as tropas de Putin e seus aliados ossetianos ainda não estão respeitando o cessar-fogo: atrocidades continuam sendo cometidas contra os georgianos. "Ai dos vencidos", disse o ditador romano Júlio César, há mais de dois mil anos.

Um marco na história de São Paulo e, apesar de não termos vencido, forçamos o governo a aprovar (2 anos depois) uma nova Constituição. Em li...